segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Como lágrimas na chuva

 

“Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.” Roy – Blade Runner, o caçador de androides.


Esses dias tenho reparado o quanto o mundo tem ficando cada vez mais impessoal. Já há algum tempo, com o avanço da eletrônica e telecomunicações, as pessoas têm sido programadas a fazerem cada vez menos coisas, a pensarem menos, a envolverem-se menos, a ser menos uteis.

Esse tema não é novo, eu sei. Posso citar o controle remoto como exemplo de tecnologia antiga que tem a finalidade de fazer com que não saiamos do lugar, não pratiquemos exercícios. Ou poderia citar os celulares e redes sociais que criam um álter ego e acabam com a pessoalidade. Mas agora com a chamada “inteligência” artificial estão se superando. E coloquei a palavra inteligência entre aspas mesmo, porque de inteligente não tem nada.

Me lembro de um filme dos anos 80 chamado Blade Runner, o caçador de androides, dirigido por Ridley Scott. Na época em que os filmes eram obras de arte. Aliás, a fotografia desse filme é absurdamente fantástica. Mas então, esse filme é baseado num pequeno livro de um revolucionário autor de ficção científica dos anos 60, o americano Philip K. Dick, e o livro chama-se “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, ou (Do Androids Dream of Electric Sheep?).

Não vou fazer uma resenha do livro, mas lembrei dele porque o autor narra uma história onde a humanidade está cada vez menos humana. Há vários fatores para isso. É um pós guerra nuclear, onde boa parte da população morreu ou está morrendo por causa da radiação. Existe uma migração interplanetária, onde as pessoas estão deixando o planeta Terra e indo viver em Marte. Assim, a população diminuiu muito e as cidades se tornaram quase vazias, sem vizinhos num raio de quarteirões. Os animais foram extintos, e para completar, uma empresa cria androides de animais e humanos tão perfeitos que a olho nu não se nota diferença entre um ser humano real e um robô. A coisa chegou num nível tão absurdo de perfeição que tiveram que desenvolver um teste com técnicas de psicologia, que no começo pelo menos, conseguia identificar os androides, mas com o tempo eles aprenderam a burlar o teste, ficando cada vez mais difícil de identificá-los. O livro apresenta o drama de viver numa sociedade cada vez menos humana. Mais solitária e menos pessoal. Onde as pessoas compram animais elétricos para substituir a falta de empatia humana. Livro.

Apesar do livro ter sido escrito nos anos 60 ainda é bem atual. Pois o nível de impessoalidade está ficando absurdo. Descobri recentemente que tem site de IA que te dá ideias de como organizar um certo assunto, outros sites que criam textos sobre o assunto, outros que modelam e ainda há os que fazem de tudo um pouco, bastando ao usuário “clicks”, sem ter que pensar muito mais do que o mínimo necessário para criar uma apostila, um e-book, um curso sobre um assunto que nem ele mesmo entende tanto. É o tal do Infoproduto e o Marketing Digital. Achei incrível esse tipo de ferramenta, mas logo depois entendi o problema da IA: ela não pensa! É limitada. Não tem criatividade. Cheguei a essa conclusão percebendo que se você pedir pra ela criar 10 apostilas sobre o mesmo assunto, ela criará 10 apostilas bem parecidas em conteúdo. Com as definições sobre o assunto repetidas, até por que as definições das coisas são as mesmas em qualquer livro sobre o assunto. Mas me refiro àquela formalidade do texto, da frieza das definições, das palavras pomposas e difíceis de pronunciar que geralmente as definições usam. Então, todos esses elementos são encontrados em todos os textos criados artificialmente. E como antigo estudante que sou, não posso deixar de notar como os textos escritos por pessoas de verdade são diferentes. Com opiniões. Informais. Passionais. Talvez pela paixão que o autor tenha pelo assunto. No livro de Philip, os androides já se mostravam com mais empatia do que os seres humanos. Não demora muito e teremos aquele teste psicológico nas entrevistas de emprego, para saber se você é um Nexus 6. Se quer saber, o nome do teste é Voight-Kampff.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Como lágrimas na chuva